Deixe-me ser mulher: Lições à minha filha sobre o significado de feminilidade 26
- Emperolar

- 22 de set. de 2022
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26 | VOCÊ SE CASA COM UMA PESSOA
Em quarto lugar, você deve lembrar que se casa com uma pessoa. Eu coloquei isso na quarta posição da lista, não na primeira. Passei a tratar a palavra pessoa com bastante cautela nos últimos anos, porque o termo passou a ser usado em excesso. Ouço muita gente falar que quer ser tratada “não como uma mulher, mas como um ser humano” ou “como uma pessoa”. Em vez de “homem”, emprega-se a palavra “pessoa” para formar expressões de gênero neutro, às vezes até o limite do absurdo. 13 Há algo seriamente distorcido nessa visão da humanidade. Eu não quero que ninguém me trate como uma “pessoa”, deixando de me tratar como uma mulher. Nossas diferenças de gênero são os termos de nossa vida, e obscurecê-las de qualquer maneira implica enfraquecer o próprio tecido da vida. Quando elas se perdem, nós ficamos perdidas. Algumas mulheres, de uma forma crédula, imaginam nisso a liberdade de um novo começo, mas, na verdade, é uma nova escravidão, mais amarga do que qualquer coisa da qual procuram libertar-se. Eu não quero conhecer “pessoas”, mas homens e mulheres. Interesso-me por homens como homens e por mulheres como mulheres; e, quando uma mulher se casa, casa-se com um homem porque ele é homem e, na condição de homem, torna-se seu marido. Esta é a glória do casamento: dois tipos de seres separados e distintos se unificam. Porém, depois de aceitá-lo como pecador, como homem e como marido, você ainda deve lembrar que se trata de uma pessoa. E, como pessoa, ele tem um nome. Nada é mais infalível em revelar sua atitude para com outra pessoa do que o nome pelo qual você a chama. Há casais que não se chamam por nome algum. Já ouvi um marido fazer uma pergunta ou um comentário à sua esposa, gritando de outro aposento, sem usar qualquer forma de tratamento. Já ouvi esposas fazerem o mesmo e já ouvi ambos os cônjuges se referirem um ao outro apenas pelo pronome de terceira pessoa. Parece-me que quem faz isso se esqueceu ou jamais reconheceu a pessoa com quem se casou. Seu cônjuge tornou-se um acessório. Há também aqueles que se chamam de “mãe” e “pai”. Isso funciona quando se fala do outro para os filhos. Mas um homem chamar sua esposa de “mãe” é mortalmente revelador. A magia já abandonou esse casamento. Ele ainda é o amado dela ou se tornou seu garotinho? É um relacionamento que ainda está crescendo rumo à maturidade, ou que está regredindo? Eu seria a última a reclamar de nomes carinhosos. Gosto deles. Faz bem ao meu coração ouvir um homem chamar uma mulher de “querida” ou mesmo de “docinho de coco” se ele quiser. Mostra que ela é especial para ele. Katherine Mansfield, cujas ternas e deliciosas cartas de amor foram integralmente publicadas, chamava seu marido de “Espectro” e ele a chamava de “Peruca”. Tudo o que peço é que um casal se chame de alguma coisa. Que ambos demonstrem, pela forma como se tratam, em público ou na cama, que reconhecem uma personalidade. Uma das descobertas mais alegres da vida é que, ao reconhecermos, afirmarmos e confortarmos outra pessoa, vemo-nos reconhecidos, afirmados e confortados. É um beco sem saída partir em busca de conhecer a si mesmo, “encontrar-se” ou descobrir seu “verdadeiro eu”. “É notório que o homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que, antes, tenha contemplado a face de Deus”, escreveu João Calvino no início de suas magníficas Institutas. E é em conexão com outras pessoas que nós mesmas nos tornamos pessoas plenas. “Nenhum homem é uma ilha.” Somos chamadas a ter comunhão com Deus e somos chamadas a ter comunhão uns com os outros. O casamento é o relacionamento mais íntimo e contínuo no qual duas pessoas podem entrar e, como tal, oferece a mais ininterrupta oportunidade de realização da personalidade. Isso não quer dizer, claro, que apenas pessoas casadas podem sentir-se realizadas. A realização é diretamente proporcional à entrega de si. Há pessoas casadas que não aprenderam nem mesmo a primeira lição sobre entrega. Há pessoas solteiras que já avançaram muito nesse caminho. Sempre me pareceu relativamente fácil entregar-me em favor do meu marido — em primeiro lugar, porque eu o amava de todo o coração e, segundo, porque as recompensas eram geralmente mais óbvias e imediatas do que em outros relacionamentos. Amar a esposa, como diz a Bíblia (e certamente se aplica também a amar o marido), é o mesmo que amar seu próprio corpo. Porém, se seu marido é uma pessoa, isso significa que você deve aceitar o mistério de sua personalidade. Já falamos de como homens e mulheres não se entendem e não podem entender-se perfeitamente. E isso não é simplesmente por causa dos empecilhos de seus gêneros. Pessoas do mesmo sexo também encontram a porta fechada. Seu marido é totalmente conhecido apenas por Deus e, em certo sentido, permanece sozinho diante dele. Deus disse a Abraão: “Anda na minha presença e sê perfeito”. Ele não sugeriu que Abraão poderia andar na presença de Sara e ser perfeito. Em última análise, ele é um homem de Deus. Ele é livre, e você deve sempre reverenciar essa liberdade. Existem perguntas que você não tem o direito de fazer, assuntos que não deve investigar e segredos que deve contentar-se em nunca saber. “Mas a esposa não tem o direito de saber de tudo?” Não. Ela não pode tomar nem pedir o que não lhe é dado, e há coisas que um homem não pode e não deve dar. As profundezas clamam apenas por Deus.


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